OPINIÃO – Raul Borges Guimarães 11/07/2021

Pé na areia. Praia do Espelho, Bahia. Entre os meus dedos, fragmentos de corais, pequenos gravetos, um pedacinho de carvão (quem teria ateado fogo?), uma minúscula pata de um crustáceo, microplásticos e grãozinhos pretos em contraste com a areia branca.
Com um graveto consigo separar os grãozinhos pretos. Pressiono-os entre duas conchinhas e, para a minha surpresa, descubro que são vestígios da mancha de petróleo que cobriu as praias nordestinas em 2019… lembra-se? Mais um desastre ambiental de grandes proporções com inquérito ambiental inconcluso nestes tristes trópicos!
Por falar em Bahia, desvio meus pensamentos para uma das definições de espaço mais bonitas elaboradas pelo eminente geógrafo baiano, o professor Milton Santos: espaço, um acúmulo desigual de tempos. Tempo do acúmulo de sedimentos do mar. Tempo cíclico da vida costeira. Tempo social tecido pelas mãos (quase) invisíveis das empresas e das relações comerciais. Tempo dos assentamentos humanos…
O mundo há muito tempo é esse híbrido, ainda que tal hibridismo tenha se acentuado com o domínio recente do meio técnico. É por isso que o professor Milton Santos nos ensina que o tempo no espaço pode ser medido a partir das infinitas combinações dos objetos técnicos sobrepostos no mesmo lugar. Ferramentas e máquinas, mercadorias descartadas, utensílios, vestuário, quinquilharias em geral, que distinguem as formas de fazer de diferentes épocas. Tais objetos técnicos são elementos constitutivos do espaço. Mais do que isso, as técnicas formam um conjunto de meios instrumentais a partir do qual as comunidades realizam a vida social, produzindo e criando seu próprio espaço. É a proposta teórica-metodológica de Milton Santos de “empiricizacão” do tempo para torná-lo comparável com o espaço concreto da vida social.
Agora a palavra de ordem é a educação híbrida. Tal como o mundo híbrido, a educação híbrida também é muito antiga, como nos ensina a nossa grande maestrina Maria Inês Fini. A educação híbrida não pode ser confundida com as modalidades de educação à distância. Ela é a combinação do ensino e aprendizagem presenciais da forma que está ao alcance de cada escola, de cada lugar…Educação híbrida para compreender esse mundo híbrido.
Com os pés enterrados na areia, fiquei ali pensando nessas inúmeras possibilidades… quem são nossos alunos hoje? Do que eles necessitam? Que desejos e medos eles têm? Como despertar a curiosidade dos jovens para esse mar de combinações? Daí entrou o vento na conversa… Se quiser, ele que conte outra!

Categories:

Tags:

No responses yet

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *