Por Fernando Leme do Prado*
*Doutor em Educação (PUCSP), membro do Fórum da Educação Profissional do Estado de São Paulo e diretor da Educação Profissional da ANEBHI

Introdução:

É interessante observar como no “edifício educação” não há elevadores, só escadas. Assim é galgando degrau a degrau que se obtêm as mudanças e evoluções nos paradigmas que norteiam a construção do processo educativo em todos os seus níveis e modalidades. Além disso, toda vez que circunstâncias de qualquer ordem impõem revisões nos modelos educacionais, sobretudo os escolarizados, reações adversas do imobilismo às desconfianças podem ser observadas, impulsionadas pelo descrédito e o desconforto. Para tentar entender porque isto ocorre vale lembrar de H P Lovecraft (1890/1937), um escritor americano que revolucionou o gênero de livros sobre suspense psicológico em uma de suas frases marcantes: “De todas as emoções humanas o medo é a maior delas. De todos os medos o maior é o medo do desconhecido”. Esta manifestação, quase centenária, nos ajuda a entender como em um mundo marcado pelas mudanças cada vez mais freqüentes e velozes as pessoas resistem tanto a aceitar que o mundo no qual você foi dormir não será o mesmo quando você acordar.

Nossa proposta é apresentar uma análise da realidade que se coloca e propor alguns caminhos para acelerarmos o processo inevitável de mudanças que se observa a todo momento. Isto sem abrir mão dos aspectos conceituais e do rigor científico que são o suporte para o desenvolvimento sustentável de qualquer proposta pedagógica. Vamos abordar a Educação Híbrida principalmente na Educação profissional indicando como se pode transformar o ensinar e o aprender com novas metodologias e novas tecnologias.

Considerações iniciais:

Apesar das mudanças impostas pela tecnologia impactarem nossas vidas de forma incisiva, há um reduto que se mantém, absolutamente, distante, em uma posição extremamente reacionária. Estamos falando da forma como o senso comum vê a educação formal. Por senso comum entendemos a opinião média das pessoas, o que as pessoas pensam e acreditam sobre um determinado assunto, verdadeiro ou não, fundamentado ou não, comprovável ou não, independente de qualquer estratificação, cargo ou função que exerçam. Importante, aqui, ressaltar que “senso comum” e “bom senso” são coisas absolutamente distintas, não correlatas nem correspondentes. Neste

mesmo sentido a educação conteudista, escolarizada, regulada e escalonada é como vemos, e como tem sido vista, a educação formal.

O tradicionalismo nos impõe conceitos de escolas do passado que são tão arraigados na sociedade que há incontáveis exemplos disto. Como em uma recente reapresentação da série Star Treck, criação do genial Gene Roddenberry, que traz uma situação que vale a pena relatar: um jovem oficial é aceito na Academia da Frota e deve retornar à Terra para ocupar uma vaga disponível para aquele ano. Esta série foi filmada no final dos anos 1980 e se passa no século 24, com um notável conjunto de avanços tecnológicos como o teletransporte, sintetizadores de alimentos acionados por voz e as viagens com velocidades inimagináveis, muito acima da velocidade da luz, confrontando com tudo o que sabemos e dispomos hoje. Uma proposta extremamente inovadora e futurista que repagina os conceitos básicos da física que acreditamos e aceitamos nos dias atuais e em nosso passado recente. Assim, é de se espantar que, do ponto de vista dos autores e plenamente aceito por todos os que assistem à série, apesar de todos os avanços tecnológicos, daqui a mais de 300 anos ainda teremos escolas físicas, localizadas em locais específicos e, um disparate, funcionando no sistema seriado anual. O senso comum, mesmo diante de inúmeras e fantasiosas inovações que a série apresenta, ainda vê a escola do futuro exatamente como ela é hoje e sempre foi.

Embora pareça absurdo, constatamos que este mesmo senso comum, no qual os pais querem oferecer a seus filhos o mesmo tipo de escola que os formou, ignorando toda a evolução tecnológica e metodológica disponível, encontra respaldo em quase toda a sociedade, inclusive na comunidade acadêmica. A chamada “escola tradicional” tem incontáveis adeptos, na contramão da evolução estrutural pela qual passam todos os demais setores. Imagine se seria possível oferecer como novidade uma TV com tubo em branco e preto, um carro sem airbags, com freio a tambor, ou um telefone móvel com discagem e que só funciona como telefone. Pois é isto que uma escola tradicional faz. Não forma para o futuro. Forma para o passado. Se retirarmos todos os avanços tecnológicos e, sobretudo metodológicos, que estão presentes na escola de hoje, voltaremos não só ao século passado, mas há muitos séculos atrás. Historicamente, a escola sempre foi o lugar onde as informações estavam e quem queria ter acesso a elas se submetia às suas regras. Acreditar que basta repetir o processo para alcançarmos os mesmos resultados não tem nenhum fundamento. É o senso comum atropelando o bom senso. Não estamos negando muitos dos princípios pedagógicos presentes na educação considerada tradicional, como os conteúdos e as atividades escolares. O que consideramos anacrônico é insistir em ficar apenas no professor que fala e no aluno que ouve, pois há inúmeros estudos, como

mostra a pirâmide de Miller, nos quais a interatividade, presente nas inúmeras metodologias ativas, atende de forma muito mais eficaz o processo de aprendizagem.

Entretanto, na Educação Básica, as escolas que apresentam propostas pedagógicas inovadoras são vistas com ceticismo, e o chamado “ensino forte”, aquele que usa em suas estratégias extensos conteúdos, cobrança contínua e retenção de memória como indicativo de conhecimento efetivo, impera absoluto. Pouco importa se isto é obtido submetendo o aluno a uma rotina dolorosa e extenuante de armazenar informação de utilidade duvidosa e certamente esquecível, associada a um clima de competição sob a alegação de preparação para os vestibulares, oferecendo a falsa imagem de que o acesso ao ensino superior já significa a conquista do futuro. Para estas instituições, que insistem em dizer que só oferecem o que as pessoas querem e procuram, as escolas físicas, com atividades essencialmente presenciais, em endereços definidos e professores em suas cátedras vão durar para sempre. Sem fazer futurologia, apenas como base nas observações da realidade disponível, é possível afirmar que é pouco provável que este modelo sobreviva indefinidamente. A tecnologia e os futuros alunos, estes das gerações informatizadas, não aceitarão sentar-se enfileirados para ouvir informações, nem sempre úteis, mas disponíveis e acessíveis, sendo proferidas por um retrógrado, embora muitas vezes bem intencionado, docente.

A aprendizagem significativa e a construção do conhecimento serão os fundamentos do processo educativo e poderão ser realizadas em qualquer lugar a qualquer tempo, com ou sem escolas. As propostas a educação híbrida valorizam este tipo de aprendizagem. O estudante como protagonista o tempo todo, na escola e fora dela. Aprender é uma atividade agradável. Nossa curiosidade está repleta de buscas por respostas nas quais aprendemos o tempo todo independente do onde estivermos e pelos mais diversos meios de forma significativa e indolor. Estimular o aluno a aprender desta forma é o que as metodologias interativas, aquelas com intensa participação do aluno na construção do seu conhecimento, estão propondo. Menos ensino e mais aprendizagem. Menos aulas e mais estudos. O professor como mediador do processo auxiliando cada aluno a aprender de forma consistente, raciocinando, correlacionando e criando. Nada daquele uso exclusivo da memória, da repetição contínua, da aprendizagem fracionada e das avaliações ilusórias. Este é o processo que iluminará a caminhada de cada um, formando, educando, indo além do informar.

Estes questionamentos sobre a necessidade de mudança nas escolas e na forma de educar se justificam quando nos confrontamos com o mundo produtivo, cada vez mais tecnológico e veloz. Estamos diante de uma

ampliação em escala exponencial das inteligências artificiais, algumas capazes de produzir customizadamente como apresentada pela indústria 4.0, que impactará todo o processo produtivo; outras com capacidade de análise de dados com índices altíssimos de acerto que já interferem nos diagnósticos médicos e nas decisões judiciais, obrigando as instituições responsáveis nestas áreas de formação a rever seus currículos, seu tempo de formação, suas estruturas, suas metodologias e, evidentemente, seus projetos pedagógicos.

Neste cenário o excesso de regulação, as normas obsoletas, mas vigentes, a intransigência e as limitações do legislador, em todos os seus níveis, a absoluta falta de visão no presente, quanto mais no futuro, do que é realmente importante para o processo educativo, surgem como um grande obstáculo, talvez o maior deles, rumo às propostas inovadoras e necessárias para assegurar a formação que se fará necessária em um mundo, como já se constata, em que muitas empresas estão mais interessadas nas competências e habilidades das pessoas que em seus diplomas. Isto tudo ocorrendo em escala global. Ao mesmo tempo, no Brasil, vemos, continuamente, críticas ao desempenho dos nossos alunos em exames internacionais e nas próprias avaliações existentes no país. Infelizmente as soluções propostas para corrigir as deficiências encontradas são, geralmente, mais do mesmo, ou seja, mais dias, mais horas, mais aulas, mais conteúdo, mais tempo na escola. Parece-nos bastante claro que este remédio já esgotou seu ciclo e que precisamos de novos diagnósticos e novas propostas; entretanto, o senso comum, o conservadorismo, o imobilismo, talvez, impedem que novas metodologias focadas na aprendizagem e não no ensino sejam usadas. Que novas propostas e novos formatos sejam experimentados. Que a inovação e a criatividade prevaleçam sobre o continuísmo.

Diante disso tudo é indispensável ressaltar a importância da Educação Profissional. Historicamente vista como complementar, jamais assumiu por aqui o protagonismo que se observa em inúmeros países desenvolvidos, nos quais a opção pela formação para o trabalho concorre com as opções mais acadêmicas de formação geral desde a Educação Básica. Em muitos destes países com preponderância. A recente reforma curricular dos ensinos fundamental e médio inclui em seus itinerários formativos a educação profissional, retomando, em boa hora, uma excelente alternativa de independência para nossos jovens. Há inúmeras formas, sobretudo as metodológicas, para alavancar a Educação Profissional tanto no nível Técnico como no Tecnológico, desde a formação dos docentes, incluindo profissionais das mais diversas áreas, até o aproveitamento das estruturas instaladas e das experiências exitosas. A interatividade, o foco na aprendizagem, o aprender a fazer fazendo estão cada vez mais presentes nos cursos profissionalizantes,

viabilizando resultados promissores; entretanto, o senso comum, o excesso de regulação e a limitação das políticas públicas parece não acompanhar estas perspectivas, cujos custos comparados com o retorno conseguido, justificariam amplamente a sua implementação.

Toda a estrutura que autoriza, reconhece e fiscaliza as atividades escolares reforça uma visão anacrônica que dificulta o uso de propostas inovadoras, principalmente porque colidem com a legislação vigente, instituída em outra época, para outra realidade. Algumas existentes há décadas, nas quais as tecnologias de hoje inexistiam, ou eram insipientes. Urge rever esta legislação e até o funcionamento de muitos órgãos para que se atualizem e possam atender a incontáveis mudanças tecnológicas e metodológicas que vivenciamos em tempos atuais. O que acontecerá com os órgãos regulatórios que estabelecem sistemas, calendários, número de dias letivos, quantidades de horas, presencialidades entre outros controles? Provavelmente terão que se adequar, reduzir suas funções flexibilizando os currículos, ou, simplesmente, desaparecer. Os sistemas remanescentes continuarão a cuidar da regulação, assegurando a validade dos estudos e dos documentos de conclusão, mas com as devidas adequações, reconhecendo que as estruturas escolarizadas não são único “lócus” dos processos de aprendizagem.

O bom senso deve imperar sobre o senso comum se pretendemos, efetivamente, formar para o futuro com todos os desafios que esta proposta representa. Repetindo: novas ideias, mais aprendizagem e menos ensino, mais estudos e menos aulas, mais formação e menos informação. É disto que a escola precisa.

Erros conceituais:

Tenho, insistentemente, alertado para a necessidade de escrever de forma didática e pragmática, propiciando tanto a necessária reflexão como a perspectiva de aplicabilidade das informações que se pretende veicular. Entretanto, por mais assertivos que se pretenda ser, é fundamental atentar para que erros conceituais, muitos deles aceitos de forma condescendente, pois são recorrentes e corriqueiros, não ocorram.

Há, na internet, uma considerável quantidade de artigos sobre Metodologias Ativas, sobretudo produzidas por autores que atuam na área da saúde. Sua leitura nos faz refletir sobre os princípios que embasam estas metodologias e o seu uso, sobretudo na perspectiva de eventuais equívocos que podem invalidar esta proposta. Vamos considerar uma frase que contém vários dos elementos encontrados nestes textos para exemplificar nossa

reflexão:

“No processo ensino-aprendizagem é muito importante que a transmissão do conhecimento se faça com o uso das metodologias adequadas”. Esta frase, aparentemente compreensível e que constaria de muitos textos educacionais, encerra um considerável conjunto de erros conceituais que, se não esclarecidos, podem descaracterizar o uso de novas metodologias, suas derivações e a inovação que apresentam, condenando a educação escolarizada a permanecer neste cenário obscuro do instrucionismo, centrado no ensino, sem nenhuma preocupação com a aprendizagem, indo na direção oposta à pretendida e divulgada.

A discussão dos fundamentos, pelos mais variados motivos, tem sido relegada a um segundo plano, sobretudo pelo açodamento que a velocidade das mudanças e o anseio pela praticidade determinam. Entretanto, sua análise e compreensão são fundamentais para que não cometamos os erros que tantos professores, por descuido ou desconhecimento, insistentemente praticam, seguindo apenas com propostas instrucionistas, mas acreditando que estão realizando sua tarefa educacional de forma correta, apoiados nos mais diferentes recursos tecnológicos. Ainda que caminhemos pelo terreno pantanoso da polissemia, no qual uma mesma palavra ou frase pode ter diferentes interpretações, se tivermos o cuidado de identificar corretamente estas expressões, veremos que mais grave que uma interpretação errônea do significado é a crença de que aquilo esteja certo.

Analisando a expressão: “transmissão de conhecimento”, que é empregada tão frequentemente, vale perguntar se é possível transmitir conhecimentos? Vamos usar a definição de conhecimento que consta de inúmeros dicionários na internet: “Substantivo, masculino, saber, entendimento sobre alguma coisa. Ação de entender por meio da inteligência, da razão ou da experiência; ato ou efeito de conhecer, ideia ou noção de alguma coisa”. Todas as referências sinalizam para o saber, o entender de forma individual. Assim, parece-nos tácito que conhecimento é absolutamente pessoal. Cada indivíduo é único. Tem os seus e só os seus conhecimentos. Aqueles que foram construídos endogenamente.

Para compartilhar aquilo que sabemos temos que seguir um conjunto de procedimentos que poderá ser bem sucedido, ou não. Inicialmente temos que decodificar nossos conhecimentos transformando-os em informações. Para transmiti-las temos que ser didáticos, daí a importância desta disciplina. O receptor, por sua vez, recebe a informação e pode armazená-la na memória, temporariamente, ou pode ressignificá-la ancorando-a em seu repertório e construindo um novo conhecimento. Repetimos: construir um novo conhecimento, que não é aquele que deu origem às informações transmitidas.

Assim, ousamos afirmar que conhecimentos são intransmissíveis. Só conseguimos transmitir informações, com todas as suas limitações.

Por que tanta preocupação com esta expressão? Porque se o professor acreditar que pode transmitir seus conhecimentos ele não se preocupará com a verdadeira construção do conhecimento de seus alunos que, seguindo esta crença, só precisarão prestar atenção aos seus ensinamentos para “adquirirem” estes conhecimentos. Erro clássico e recorrente. Esta clareza epistemológica está na base de qualquer processo educativo, pois só assim o professor trabalhará efetivamente preocupado com a aprendizagem e não com o ensino.

Analisemos, agora, outra expressão da frase que estamos usando como exemplo: “Processo ensino-aprendizagem”, igualmente constante de incontáveis textos, notadamente, reforçamos, aqueles sobre metodologias ativas.

Inicialmente temos que esclarecer que ensino e aprendizagem são coisas muito diferentes; embora frequentemente associados não fazem parte de um mesmo processo. É preciso ter muita consciência disto nas tarefas do magistério. Um não decorre do outro necessariamente. Há muito ensino sem nenhuma aprendizagem e muita aprendizagem sem nenhum ensino. Não há como estabelecer uma relação direta entre eles. Mas é isto que a escola faz.

Por que é um erro grave? Se acharmos que basta ensinar para que o aluno aprenda, ou acreditarmos que a tarefa do professor é ensinar e a do aluno aprender, estaremos desconstruindo a prática docente e transformando a função do professor em mero repassador de informações, decretando sua obsolescência diante do volume de meios para acessar informações disponíveis de forma muitíssimo mais eficiente. E o professor não se dá conta. Uma frase recorrente em reuniões de professores é: “Eu ensino. Se o aluno não aprende é problema dele. Não estuda, se estudasse aprenderia”. Se para aprender basta estudar, para que o aluno precisaria do professor?

Mais uma vez ousamos afirmar que “processo ensino-aprendizagem” não existe. As metodologias ativas são de aprendizagem. Confundir aprendizagem com ensino ou acreditar que um decorre do outro é a base da escola conteudista que se limita, às vezes de forma massacrante, a apresentar quantidades gigantescas de matéria acreditando que haverá alguma aprendizagem. No máximo, as memórias de seus alunos ficarão temporariamente hiper ocupadas.

Discutir conceitos é fundamental. O uso de metodologias ativas pode representar uma mudança considerável nos resultados de qualquer processo

educativo. Entendê-la, sobretudo em seus princípios, é indispensável, pois sem isto corremos o risco de invalidar tudo o que se pretende fazer em decorrência de erros conceituais.

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