Educação Híbrida

Por Maria Inês Fini

Apresentação

A educação híbrida ganhou destaque com o isolamento físico dos estudantes  e consequente afastamento de suas escolas no Brasil e no mundo. Ideias novas, algumas muito criativas, outras contraditórias e até insustentáveis diante do quadro das desigualdades socioeconômicas das famílias dos estudantes que agravaram as vulnerabilidades às quais os alunos das escolas publicas estavam submetidos contornava o conceito de educação híbrida e sua adequação à educação básica do Brasil. Inserida nesse contexto nasceu a ANEBHI – Associação Nacional de Educação Básica Híbrida, que busca organizar uma comunidade colaborativa de professores e gestores oferecendo espaços adequados para troca de experiências, para que possam se submeter à curadoria de especialistas para se transformarem em conhecimento a ser compartilhado entre todos, contribuindo para a formação continuada dos profissionais da educação. Mesmo antes de ter completado um ano de sua criação, essa sociedade sem fins lucrativos, já conseguiu recrutar profissionais brasileiros, cujos trabalhos já se revelaram de grande relevância para a educação básica, como conselheiros voluntários das diferentes diretorias estruturais da ANEBHI.

            Inserido no contexto atual da educação básica do Brasil, foram elaborados estudos para aprimorar o conceito de educação híbrida, base a partir do qual a associação vem estruturando seus trabalhos nas diversas diretorias com a forte convicção de que a modalidade híbrida, se bem planejada e sustentada pode enriquecer a educação presencial e, principalmente favorecer a implantação da BNCC.

            O texto que se segue, esclarece esse conceito e propõe elementos a serem considerados na reformulação de currículos da educação básica com arquiteturas da educação híbrida.

            Essa é essa primeira contribuição da ANEBHI para esse novo tempo que, acreditamos, pode ser muito promissor.

Introdução

            É preciso esclarecer o que significa o adjetivo híbrido principalmente quando associado a educação básica. No sentido mais geral, híbrido significa “mistura”, ou seja, várias combinações possíveis de elementos diferentes para compor um outro todo, novo e diferente das partes individuais, mas que as contém.

            Na Biologia, o termo designa um cruzamento genético entre duas espécies vegetais ou animais distintos. Na Linguística refere-se à palavra formada por elementos tomados de línguas diferentes.

            Para a educação, esses exemplos ilustram bem o que deve ser compreendido como educação híbrida, que essencialmente significa a combinação de ensino e aprendizagem presenciais com ensino e aprendizagem remotos.

            Este é o conceito é adotado pela ANEBHI – Associação Nacional de Educação Básica Híbrida – que opta por compreender a educação híbrida, não apenas como ensino híbrido, o que excluiria a aprendizagem, e também não como ensino remoto, pois, além de excluir a aprendizagem, excluiria também a educação presencial.

            É oportuno esclarecer que não se trata de educação à distância, modalidade que se organiza sem a fase presencial onde recursos de comunicação variados são utilizados para promover o ensino e também a aprendizagem remotas.

            No Brasil, a legislação educacional até muito pouco tempo atrás, determinava que só existiam, duas modalidades de oferta da educação formal, a presencial e a  distância, sendo que a modalidade à distância só era  permitida na educação superior.

            Entretanto, a  Resolução nº 3, de 21 de novembro de 2018  que atualiza as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, autoriza até 20% de ensino a distância no Ensino Médio Diurno, preferencialmente, nos itinerários formativos do currículo, necessariamente com acompanhamento/coordenação de docente , de forma remota. E estende em até 30%  no Ensino Médio Noturno, preferencialmente, nos itinerários formativos do currículo, necessariamente com acompanhamento/coordenação de docente a oferta de ensino remoto.

            Na modalidade de educação de jovens e adultos passa a ser possível oferecer até 80% (oitenta por cento) de sua carga horária a distância, tanto na formação geral básica quanto nos itinerários formativos do currículo, desde que haja suporte tecnológico, digital ou não, e pedagógico apropriado.

            Retomando, são muitas as questões que impactam a construção do  conceito de híbrido na educação básica.

            Não existe para nossa legislação a educação semipresencial e a doutrina da educação híbrida ainda precisa ser melhor compreendida para que possamos pensar em formas de regramento legal, se é que seriam necessários.

            Na atualidade, são muitas as questões que impactam a construção do conceito de híbrido na educação. Elas  não  se  reduzem  a esta ou aquela metodologia ativa, ou a mera transposição do presencial ao digital, ou ainda a exploração de recursos tecnológicos como único recurso obrigatório para a etapa remota.

            Primeiramente, uma proposta de educação híbrida não pode ser referida a um modelo estanque e de fácil definição. Acima de tudo é preciso compreender que, mesmo neste momento de crise, com afastamento dos estudantes e professores das escolas, pensar a educação híbrida como estrutura de projetos pedagógicos das escolas de educação básica é também uma oportunidade para fortalecer o que aprendemos com as determinações da BNCC, que transformou o que achávamos que sabíamos sobre como ensinar e aprender.

            Nunca tivemos uma oportunidade tão fascinante de conseguir o envolvimento de todos num novo e revolucionário projeto que pode acelerar a inovação na educação básica.

            Resta estão, apontar fundamentos, conceitos e modelos, esclarecendo algumas confusões que cercam o conceito de educação híbrida, especialmente pela possibilidade de ser uma alternativa rica para uma nova estrutura das propostas pedagógicas na educação básica.

            Neste momento da educação, principalmente a brasileira, é importante apontar caminhos para uma transição segura entre paradigmas que geram novos modelos de organização das escolas e do trabalho dos professores que afetam diretamente a vida das famílias e o futuro de crianças e jovens.

            Educação híbrida remete a currículos mais flexíveis, com planejamento do direito do que é básico e fundamental para todos, com caminhos comuns, mas também trajetos personalizados para atender as necessidades de cada escola e aluno. 

 Híbrido também é a articulação de processos mais formais de ensino e de aprendizagem com os informais, de educação aberta e em redes configuradas com muitas dimensões e recursos.

            Híbrido implica em integrar áreas acadêmicas diferentes, profissionais diferentes e alunos diferentes com  famílias diferentes, em espaços e tempos muito desiguais.

            Mas antes, vamos às confusões mais habituais que cercam a educação híbrida com a pretensão de lançar luzes sobre o conceito.

            1. É preciso esclarecer que a educação híbrida não é fruto da pandemia, embora seja o tema mais  emergente na educação básica hoje.

            Se pensarmos a educação numa abrangência maior do que a do universo da escolarização formal, a educação híbrida sempre existiu. Crianças, jovens e até adultos aprendem e se desenvolvem em muitos e diversificados espaços sociais, culturais e familiares, sempre influenciados  por suas condições de vida, que, no caso brasileiro, apontam profundas desigualdades que também se tornam presentes nas escolas.

            A educação básica escolarizada utiliza espaços diferentes, tempos diferentes de execução de projetos, mescla atividades, pesquisas, lições de casa, estudos do meio, e muitas e diferentes  formas de ensinar e aprender.

            Na educação formal,  acontecem  tipos diferentes de hibridismo quando  por exemplo integramos conhecimentos de diferentes áreas para compreender melhor um fato ou fenômeno, quando usamos várias combinações de metodologias, múltiplas atividades, diferentes  projetos, jogos,  atividades individuais e colaborativas em tempos e espaços diversos.

            Entretanto foi o isolamento físico dos estudantes de suas escolas, de seus colegas e professores e os desafios que esse distanciamento vem representando a cada dia que está impulsionando uma  transformação disruptiva do modelo de escola que tínhamos, uma vez que desencadeou uma transformação da arquitetura de instituição escolar tradicional existente até o início de  2020.

            A construção de um novo modelo, nem sempre de rápida elaboração e implantação, tal como as demais transformações paradigmáticas na cultura escolar, deveria ter sido muito mais lenta e suportada por diferentes mecanismos de apoio, uma vez que não se trata de simples pinceladas de inovação.

            Vale recordar que neste início do século XXI tínhamos ainda um  modelo educacional do século XIX, centrado na transmissão de conteúdos, que ignorava as crescentes descobertas da psicologia, da didática, das teorias de comunicação e da invasão da microeletrônica em todos os espaços da vida cotidiana, ignorava principalmente, o crescente questionamento da juventude acerca do papel social dessa escola na vida e no futuro de todos eles.

            Desde o início da década de 90, com o advento da cultura da avaliação educacional e da consolidação das estatísticas educacionais, o Brasil começou a estruturar propostas, leis e resoluções implementadas por diferentes gestores de políticas educacionais para  enfrentar a acentuada crise de aprendizagem dos alunos brasileiros, principalmente apoiado pelas evidências trazidas pelos Censos da Educação Básica e Superior e pelas Avaliações, SAEB e  ENCCEJA e pelo exame ENEM.

            Os resultados das seguidas avaliações e dos dados estatísticos apressaram a discussão sobre os currículos nacionais, uma vez que remetiam à reflexão do que,  do como e a quem  ensinar, para poder avaliar com justiça.

            Se a década de 90 expressa mundialmente um marco significativo na revolução de ideias que, ainda hoje, alimentam a reflexão sobre a educação básica, sua influência direta nos campos do currículo, da avaliação e da formação de professores, também foi marcante para a educação brasileira,  incorporados principalmente pela LDB/1996, pelos Parâmetros Curriculares do Ensino Fundamental/1996 e pelas Diretrizes Curriculares do Ensino Médio/1998, que já mobilizaram educadores brasileiros e gestores de sistemas sobre ideias revolucionárias e renovadoras.

            Não se trata de fazer aqui um retrospecto das medidas implementadas, algumas revogadas, outras renomeadas, mas sim de caracterizar a importância da discussão sobre currículo, avaliação e formação de professores, marcada pelas ricas contribuições que o amadurecimento desta reflexão trouxe ao Brasil.

            Todo esse esforço em busca de inovação na educação básica culminou, em 2018, com a aprovação da BNCC – Base Nacional Comum Curricular do Ensino Fundamental completada pela BNCC do Ensino Médio, em 2019, com todos os seus desafios de orientar novas propostas pedagógicas, com nova arquitetura curricular, referida ao desenvolvimento de competências e habilidades cognitivas e também habilidades sócio emocionais associadas aos conteúdos, num conceito mais abrangente de ensinar e aprender, com metodologias mais ativas que buscassem o protagonismo dos alunos, para promover o desenvolvimento integral e sua contínua autonomia de pensamento.

            Ainda no arcabouço das transformações foi aprovada a Reforma do Ensino Médio em 2017 e elaborada em 2019 uma proposta do CNE de formação inicial e continuada de professores, articulada à BNCC do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, sob a qual muitas expectativas foram criadas na esperança de que finalmente seria oferecida aos professores brasileiros, tanto os que estão na ativa como os que vão iniciar a carreira, uma base sólida e articulada de conhecimentos que lhes permitissem favorecer os direitos de aprendizagem e desenvolvimento dos alunos por meio de suas práticas profissionais renovadas.

            Alunos protagonistas, metodologias ativas, currículo por competências, aprendizagens baseadas em resolução de problemas, novo ensino médio, competências sócio emocionais,  tecnologias interativas, ensino contextualizado, entre outros, são alguns dos conceitos que já desafiavam a educação brasileira a pensar um novo projeto pedagógico para as escolas de educação básica.

            Mas para sair do papel, e se transformar em currículo escolar, a BNCC precisava ser compreendida em sua totalidade por professores e gestores.

Seus conceitos científicos, filosóficos e artísticos estão associados a processos cognitivos e sócio emocionais avançados com os quais, há muito a educação brasileira precisava se comprometer e que representam a verdadeira transformação da escola de mera passadora de informações e treinadora de memória, para armazenar respostas a problemas conhecidos, para o patamar de favorecer o desenvolvimento de estruturas de inteligência  com as quais os estudantes pudessem gradativamente ser preparados para o enfrentamento do novo, do inusitado, do que ainda está por vir.

            Durante o ano de 2019,escolas e redes municipais e estaduais fizeram um intenso movimento para reconstruir suas propostas pedagógicas tendo como referência obrigatória princípios, valores e conceitos da BNCC.

Tínhamos consciência dos grandes desafios que a escola brasileira deveria enfrentar, principalmente em relação à formação continuada de professores para esse movimento quase disruptivo de inovação.

            2020 representava o início da implantação dos novos currículos, com todos os seus desafios e logo no início do ano letivo veio a pandemia, obrigando o fechamento das escolas e interrompendo o trabalho presencial no Brasil e no mundo.

            Naquele momento, mesmo inseridos num contexto de insegurança pela própria sobrevivência, gestores, professores, alunos e famílias buscaram responder ao novo desafio.

 Entre o período de uma sexta para uma segunda feira, a cena em que deveria acontecer a educação formal foi transferida da sala de aula para a sala de visita das famílias; os professores que eram os protagonistas dessa cena viraram coadjuvantes e as famílias passaram a um inusitado protagonismo.

            Certamente a história fará justiça registrando esse esforço empreendido por todos  para que a educação formal escolarizada não saísse da vida dos alunos.

            Os meios de comunicação com as famílias para acesso remoto foram os possíveis para cada escola, e desta para seu grupo de professores e de todos para os alunos que constituem sua comunidade escolar.  Programas de rádio, televisão, fornecimento de chips telefônicos, para acesso a grupos de WhatsApp, trabalhos impressos entregues com a perua da merenda e até as mais variadas plataformas digitais.

            Professores desenvolveram, em tempo muito rápido, novas habilidades para lidar com a tecnologia disponível e aprenderam usar as ferramentas básicas para comunicação remota  com seus alunos até mesmo antes de compreenderem os impactos que essa modalidade de trabalho teria na aprendizagem e nos vínculos afetivos e emocionais com cada aluno e entre eles.

            As famílias desdobraram-se e muitas sentiram-se inseguras em relação à garantia da escolaridade programada e agora cumprida em outra dimensão.

            Pareceres e  resoluções foram emitidos para dar legitimidade  a esse momento vivido, principalmente reconhecendo o valor e a oportunidade da educação híbrida na educação básica, sempre vinculando o presencial e o remoto de maneira indissociável.

            Foi nesse cenário que  começamos a falar em educação híbrida de maneira intensa, muitas vezes cercando o conceito de muitos equívocos, não só do conceito em si, mas pela criação de regras e condições muitas vezes arbitrárias e até insustentáveis  para sua aplicação na realidade da escola brasileira que se apresenta com cenários sociais e econômicos muito diversos.

            2. Reduzir todas as formas de comunicação para o ensino e para a aprendizagem remotas a apenas a esta ou aquela modalidade de plataforma digital, causou e causa ainda muita confusão.

            Não  se trata de  negar invasão e as vantagens das novas tecnologias em nosso cotidiano. O contexto da vida moderna já apresentava novas configurações de espaço e tempo, com menos tempo para deslocamentos das pessoas e a organização de novos ambientes de aprendizagem, além da sala de aula. 

            A cultura digital, disponível cada vez mais a todos, avançava para a vida de nossos alunos e também para o interior das escolas e  disponibilizava um enorme contingente de informações num sistema aberto, dinâmico, e possível de ser acessado em qualquer hora em qualquer lugar e num tempo não necessariamente estruturado.

            A BNCC, ao indicar os diretos de aprendizagem e desenvolvimento de crianças e jovens na perspectiva de sua integralidade, unindo o físico, sócio emocional e o cognitivo, já pontuava  que o conhecimento se dá como resultado de um processo interativo entre aquele que aprende e os objetos de conhecimento, ou seja, as informações organizadas em forma de conceitos, fórmulas, problemas, teorias, textos, poesias. Dessa maneira podemos compreender que a informação em si não é conhecimento embora seja dele parte indispensável.

            Portanto o caráter eminentemente pedagógico da construção de conhecimentos não está na informação em si, disponível em recursos tecnológicos digitais, em material impresso, em programas educativos na televisão no rádio ou em dispositivos telefônicos, mas na maneira em que quaisquer desses meios de comunicação são estruturados para favorecer a interação dos alunos com os objetos de conhecimentos incluídos nessas informações e daí resultarem as mais diversas formas de aprendizagem e desenvolvimento.

            Essa interação pode e deve obrigatoriamente ser favorecida pelo professor na sala de aula presencial, de múltiplas maneiras e com recursos metodológicos diversos, inclusive  com apoio de recursos  de comunicação que apoiam sua presença sejam os programas de televisão, rádio, celular e até nas plataformas digitais.

            Raramente é só uma nova metodologia ou uma nova tecnologia que cria disrupção, mas a aplicação de metodologias e tecnologias existentes de novas maneiras que podem impulsionar a construção de conhecimentos, na medida em que dão suporte atrativo e organizado para favorecer as aprendizagens dos alunos.

            É justo, entretanto,  reconhecer que a expansão das tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), otimizaram e até mesmo tornaram mais conhecidos esses novos desafios educacionais.

            E, finalmente, começamos então a falar mais intensamente em tecnologias híbridas,  que  integram  as atividades de ensino e de aprendizagem das salas de aula presenciais com as atividades de ensino e de aprendizagens remotas realizadas com os mais diversos meios de comunicação e informação que compõem os meios possíveis a cada comunidade escolar para concretizar essa nova dinâmica de um projeto pedagógico com a estrutura de educação híbrida.

            3. Condicionar a educação híbrida às diferentes modalidades de metodologias ativas podem induzir a outro engano.

            Embora não possamos condicionar a existência da educação híbrida a este ou aquele modelo de metodologia ativa, devemos reconhecer que estão nelas as premissas que se transformaram em incríveis recursos metodológicos que poderão  impulsionar as práticas dos professores nos novos  currículos a partir da BNCC, na medida em que permitem criar as condições que favorecem o desenvolvimento e aprendizagem de crianças e jovens na plenitude dos ideais da BNCC, especialmente o pensamento criativo, a resolução de problemas e a crescente  autonomia moral e intelectual que vai condicionar o protagonismo de crianças e jovens em suas trajetórias de vida e de escolaridade. E é o desenvolvimento de atitudes colaborativas entre alunos, professor e família  que mais evidenciam a necessidade do desenvolvimento das habilidades sócio emocionais, felizmente já reconquistadas para o currículo da educação básica. Entretanto falta ainda uma compreensão mais fundamentada  sobre esse desenvolvimento que possa sustentar novas práticas sem que elas sejam meras aplicações de receitas, etapas ou protocolos de uso desta ou daquela modalidade de metodologia ativa.

            De um lado o professor precisa primeiramente conhecer  e dominar os objetos de conhecimento, que pretende ensinar  e a maneira mais adequada de ensiná-los, mas isso sempre deverá estar apoiado nos conhecimentos de como os alunos aprendem em todas as etapas da educação básica, mesmo porque favorecer  o desenvolvimento da criatividade, curiosidade e pensamento crítico de crianças da educação infantil é muito diferente de trabalhar com essas mesmas habilidades com crianças do ensino fundamental e com jovens do ensino médio.

            É preciso esclarecer, finalmente, que o conceito de metodologias ativas  e seus usos não foram descobertos pela pandemia nem pela BNCC, embora tenham adquirido, com o advento delas, grande ênfase na educação básica. As primeiras ideias de metodologias ativas  remontam à 1930  com John Dewey e sua Escola Viva, com a concepção de um aluno ativo que já impactou a sala de aula tradicional estruturadas com as grandiosas  aulas expositivas. Uma  nova didática já com Dewey trazia para o ensino nova dimensão e desafios, acrescidos pelos conhecimentos das teorias construtivistas, especialmente ancoradas nos estudos e pesquisas de Piaget e Vygotsky, que evidenciavam como se dá o desenvolvimento físico, afetivo cognitivo e socioemocional de crianças e jovens o que resultou em conhecimentos sólidos de como se aprende em diferentes fases da vida.

            As metodologias ativas já existiam no cenário educacional brasileiro desde o século passado com ideias bem consolidadas no revolucionário Manifesto dos Pioneiros de 1932.

            Desde então, foram utilizadas no ensino superior e difundidas pelas experiências

exitosas na área da saúde. São notáveis as mudanças apresentadas nas Diretrizes Curriculares do curso de Medicina de 2014 que simbolizam  profunda mudança na formação médica, fundamentada em princípios epistemológicos da formação em serviço, amplamente impulsionadas pelo uso de metodologias ativas, e currículos de sucesso foram estruturados na metodologia  PBL Problem Based Learning. São exemplos considerados sinônimos de inovação na área de formação médica com resultados surpreendentes no Brasil e no mundo.

            Atualmente, novas metodologias, Peer Instruction, Flipped Classroom, Metodologia de Projetos, entre outras, emergem no cenário educacional da educação básica,  sem que muitos educadores se deem conta de que os princípios epistemológicos que as fundamentam têm em comum a ideia de um aluno ativo, que constrói conhecimento em situações desafiadoras.

            Em suas diferentes modalidades, apoiadas ou não por tecnologias digitais, as metodologias ativas envolvem aprendizagem personalizada no ritmo e estilo de cada aluno. Por meio das metodologias ativas os alunos  desenvolvem um conjunto integrado de competências para aprender a conhecer, a conviver, a ser e a agir.

            O conhecimento e o domínio dessas modalidades de metodologias ativas são um excelente instrumento de renovação do trabalho do professor, mas seu uso precisa estar apoiado em fundamentos da psicologia (como aprender) e da didática (como ensinar), além das características específicas que permitirão a cada escola reorganizar a proposta pedagógica nas estruturas de educação híbrida. Não é, portanto, uma modalidade ou outra de metodologia ativa que vai determinar um modelo x ou y de educação híbrida.

Os MODELOS

            Como vimos até aqui, não existe “modelo” de educação híbrida a seguir. Entendemos que tudo o que é  híbrido, é dinâmico, e pode ser estruturado de várias maneiras, no contexto de cada escola ou rede, desde que se considerem os quatro elementos que são seus estruturantes: o gestor e os recursos da escola; os professores seus conhecimentos e condições de trabalho; as famílias e suas condições de suporte; e os alunos e suas disposições para aprender e se desenvolver.

            São essas as condições estruturais que caracterizam uma proposta pedagógica de educação híbrida, seja pela  existência de tais e quais recursos de comunicação que a instituição dispõe para uso de professores, alunos e suas famílias; seja pelo domínio dos professores sobre conhecimentos de psicologia do desenvolvimento, didática, metodologias ativas  e uso de tecnologias disponíveis; seja pelas condições das famílias para compreender e apoiar a proposta, principalmente pela existência dos mesmos recursos tecnológicos de suporte para a etapa remota e apoio sócio emocional a seus filhos , e, principalmente pelas disposições de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos.

            Essas condições são igualmente importantes e se uma delas falhar não haverá chances de sucesso na promoção do desenvolvimento e aprendizagem dos alunos, este sim, fim último de toda ação intencionalmente  educativa que deve caracterizar  a educação básica.

            Muito importante destacar é o ambiente cultural que cerca a escola, as famílias, professores e estudantes. Não se trata apenas de ter acesso à bens culturais e artísticos, todos muito necessários para todos, mas da imersão real em contextos que permitem compartilhar hábitos, valores, crenças e princípios que invadem a escola e não podem ser ignorados.

            O Infográfico a seguir esquematiza o modelo  sugerido para  educação básica híbrida.

Considerações sobre os quatro elementos do Modelo

            Gestor

            Na educação híbrida, o gestor acrescenta outro papel ao seu perfil administrativo na medida em que deverá constituir um novo ecossistema de aprendizagem, incluindo novas vozes e contextos em sua comunidade escolar. A partir de agora ele terá que estar atento à busca e coordenação de todos os recursos e meios a serem disponibilizados para uso de sua comunidade escolar, conhecendo-lhes as dimensões estratégicas e operacionais de uso e principalmente as dimensões pedagógicas.

            A composição e o funcionamento dessa comunidade com novo ecossistema de aprendizagem, composto de novas vozes, representam um desafio, mas também uma oportunidade de estruturação de uma mudança radical e inovadora da escola que temos. Convém lembrar que o Brasil já deu passos importantes para melhorar a educação básica, seja no conjunto de normas, de documentos pedagógicos oficiais, e mais importante, na consciência nacional de que é preciso mudar.

            Além da consciência, é preciso coragem para ousar novos caminhos e inovar  para

trazer vida às referências inovadoras que precisam mudanças estruturais, já de consenso entre os educadores brasileiros.

            A pergunta norteadora aos novos gestores e que desencadeia essa nova postura remete aos outros elementos do modelo: o que os professores sabem e são capazes de realizar com os insumos de comunicação que a escola tem disponíveis? Como redimensionar o relacionamento com as famílias para que compreendam e participem desse novo modelo?

            Em que pese o reconhecimento das precárias condições de trabalho e salários de professores, está quase passando da hora de uma renovação radical dos projetos de capacitação continuada para eles.

            Eles precisam de apoio técnico e científico para compreender os conceitos estruturantes da BNCC, seus objetos de conhecimento na expressão das competências e habilidades indicadas em cada componente e ano escolar.

            Isso é o fundamental, mas não basta.

            Quais são as formações continuadas que a escola deve prover a eles? Dominam o currículo da escola inspirado na BNCC? Conhecem as metodologias ativas plausíveis na educação híbrida? Conhecem novas propostas de avaliação próprias da abordagem híbrida e sabem fazer o melhor de seus usos? Precisam aprender novas formas de avaliar no presencial e no remoto?

            O gestor tem que assumir com sua comunidade de professores a organização da demanda de formação e só então buscar entidades da sociedade civil que concordem em atendê-las.

            Também é de atribuição do gestor, organizar o conhecimento da realidade das famílias de seus alunos e manter com elas relacionamento estreito para a responsabilidade ora compartilhada.

            Quais os recursos de comunicação que as famílias dispõem para o ensino remoto? Quais as possibilidades de monitoramento de crianças e mesmo dos jovens quando participam das atividades remotas? Precisam de ajuda da escola para reforçar o suporte socioemocional dos filhos?

            Em relação aos alunos, a tarefa urgente e continua é a  estruturação de um projeto de busca incansável para alunos que abandonaram a escola, seja pelos mais diversos motivos, por mais inconsequentes que aparentem ser.

            É muito importante que o gestor compreenda que a escolaridade formal  desenvolvida nas escolas, principalmente na etapa presencial, contém elementos fundamentais para a formação da personalidade de nossa crianças e jovens.

            Para muitos deles, a escola representa o primeiro ambiente estruturado, com horários, turmas de amigos, regras de convivência, deveres, e direitos  no qual vão interagir. Nesse ambiente de interação com professores, colegas e funcionários serão desenvolvidos, incentivados e fortalecidos valores e princípios fundamentais para sua cidadania além das aprendizagens essenciais que precisam da mediação dos professores e da interação com os colegas em sala de aula, além do convívio afetivo e emocional que toda comunidade escolar propicia.

            A escola como comunidade de interação faz falta a todos, e diante das vulnerabilidades de muitos, fará mais falta ainda para aqueles que abandonam a escola.

            Professor

            O modelo vai depender também do apoio à preparação dos professores não só para o domínio mínimo dos recursos tecnológicos que vão utilizar, mas também para o preparo dessa combinação entre o presencial e do remoto.

            É fundamental que os professores sejam apoiados para serem capazes de organizar seu plano de trabalho distribuindo ensino e aprendizagem entre o presencial e o remoto de tal forma que ambos possam ter um significados próprios, mas que sejam complementares, enriquecidos mutuamente e indissociáveis em sua realização.

            Garantir direitos de aprendizagem para crianças e jovens, tal qual prescritos na BNCC, implica uma mudança profunda na maneira de “ensinar de nossos professores”, para a aplicação de metodologias ativas, que transformam a relação professor aluno, às quais eles também não tiveram acesso em sua formação inicial.

            Não aprenderam também usar recursos modernos de comunicação como televisão, rádio, celular, plataformas digitais, e mesmo materiais impressos com diálogo mais consistente com os aluno como apoio às aprendizagens sejam presenciais ou remotas de maneira a romper o modelo das aulas expositivas nos moldes tradicionais.

            O  professor é o elo mais estratégico dessa estrutura de educação híbrida, na medida em que puder valer-se das tecnologias disponíveis para organizar e reger condições facilitadoras do desenvolvimento dos alunos, não só selecionando os conteúdos e indicando as competências e habilidades a serem desenvolvidas, mas, principalmente definindo as estratégias das quais vai se valer para organizar o ambiente da sala de aula presencial e remota para promover a aprendizagem autônoma dos alunos , para que possam exercitar o protagonismo saudável e empreendedor a partir da escola para a vida.

            Família

            Para coordenar a estruturação de um modelo de educação híbrida para sua escola, o gestor precisa saber como são constituídas as famílias de sua comunidade. 

            A aproximação, agora renovada em outro tipo de parceria, pode permitir a constituição de verdadeira comunidade educativa com papéis e deveres diferentes, mas complementares para favorecer o desenvolvimento e aprendizagem dos alunos.

            Mais do que isso é grande a oportunidade para discussão de valores a serem compartilhados como significativos para compreender os desafios  da vida presente e seus impactos no futuro de seus filhos onde a escola tem papel coadjuvante.

            E as  famílias precisam urgentemente de esclarecimentos sobre o compromisso da escola em repor a escolaridade que certamente faltou em função do isolamento social.

            Aluno

            O aluno ideal da educação híbrida ainda é uma abstração. É oportuno mencionar que, no geral, nosso modelo de escola privilegiava um aluno passivo que assistia aulas, cujo desafio maior era repetir exatamente o que ouvia.

            Se a escola vai se reorganizar em torno de um conceito mais abrangente  de ensino precisa considerar a aprendizagem personalizada de um lado e a cooperativa de outro o que pode ser apoiado pelos diferentes recursos de comunicação em nova organização do ensino e aprendizagem remotos, desde o material impresso até as plataformas digitais.

            Esse aluno ativo, sujeito de seu desenvolvimento e aprendizagem existe sim, mas as práticas tradicionais de ensino pouco permitiram que ele surgisse na cena da sala de aula.

            Agora é preciso usar todos os recursos e metodologias, que pudermos ter à nossa disposição, para motivá-lo a assumir as rédeas de seu desenvolvimento, por meio de  aprendizagens significativas, que tenham encantamento e sedução para a curiosidade, a descoberta, a imaginação, o pensamento criativo, autodisciplina e gerenciamento do próprio tempo, além da solidariedade e do cooperativismo, incentivando-os para que se  comprometam com a própria aprendizagem aprendendo a estudar individualmente com autonomia, mas com responsabilidade na tarefa grupal.

            Com esse movimento que pode ser considerado mais como disrruptivo do que simplesmente inovador, a escola brasileira de educação básica tem a grande oportunidade de incorporar em seus currículos híbridos uma integração maior entre gestores, professores, famílias e alunos, fortalecendo laços de envolvimento entre todos para que cada um aprenda a conviver respeitosamente com o outro e consigo mesmo, base estruturante da nossa cidadania.

            O protagonismo dos alunos como exercício do desenvolvimento da autonomia e da habilidades de trabalhar em diferentes grupos, comunicando-se e compreendendo tudo o que circula em diferentes  formas de linguagem no mundo farão nossos jovens ao final da educação básica mais habilitados a viver, trabalhar e ser feliz nesse mundo que não podemos prever.

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VYGOSTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. Trad. por Jeferson Luiz Camargo. 1ª ed. brasileira. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

* Maria Inês Fini, doutora em educação, fundadora da FE/UNICAMP, ex-presidente do INEP e primeira presidente da ANEBH – Associação Nacional de Educação Básica Híbrida.

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